5.ª Reunião: Se abro 207

– José Carlos

Pouso a chave, tu ris-te

Lês-me como antevendo que te despisse

Perguntas-me: é bom o vinho tinto?

Que medo te tenho, porque não te sinto?

Tingimo-nos de roxo, eu bebo sangue quente

Amarras-me o pescoço num gesto indiferente

Hesita o corpo: que força, que distância?

Quem somos nós nas ruas de assim tão grande importância?

 

 

 

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4.ª Reunião: Nós.

– Rafael Soares

Corruptíveis os homens que se lançaram nos navios à procura do metal, precioso papel-moeda e cifrões.

Corruptíveis os homens que escondem a cabeça das improbabilidades da ética, da moral.

Corruptíveis todos os homens que passam, prendem, rendem, vendem, estancam, mancam, pagam, matam.

Corruptíveis nós em redopios que os nós fazem pelos nossos sistemas imberbes, inaplicáveis, inalienáveis, insustentáveis, ingratos em cortantes actos da peça do mundo.

Corruptíveis nós pelo olhar adverso ao versículo natural dos primitivos.

Corruptíveis nós.

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4.ª Reunião: Ao peão

– Rafael Soares

Mirolhos passos num ataque baço

Eis-nos peças mortas no regaço,

Homens-quisto de um cancro pronto

Sem estória, sem hino, sem conto,

Cantam-me hossanas pelo que faço,

Destemida passada e nervos d’aço.

General de mim mesmo que nunca fui,

Protegendo este nobre Rei mui,

Quero ser peão de novo, de novo outra vez,

Vi o meu fado e visto-me de preto e de branca tez.

Quem me salva desta teia?

O corrupto bispo ou a alarve ameia?

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4.ª Reunião: O Jogo das Figuras

– Rafael Lima

 

Com 16 peças, se constitui um jogo que nos leva a pensar antes de agir; leva-nos a arranjar estratégias para podermos sair vitoriosos desta série de estratégias que frequentemente, nem se sabe como chegamos a tê-las. Surgem ataques que deitam abaixo, e apenas nos podemos levantar e continuar a luta. Um verdadeiro labirinto que nos faz a cabeça a andar à roda sem sabermos o que fazer. Era precisamente o que pensava o jovem chamado Alegrete que se via agora na frente de batalha; um soldado de infantaria; empunhando a vontade do seu comandante, pois mais nenhuma arma tinha para a sua defesa. Era um mero peão.

Nunca se tinha apercebido da situação para a qual tinha sido talhado. Parecia natural estar ali, mas ao mesmo tempo não sabia como agir. Estava perante uma decisão que lhe podia trazer a morte a qualquer momento; poderia morrer às mãos de um cavaleiro que se movimentasse de forma única; podia-se esbarrar contra uma fortaleza de inovação militar que tinha a mesma solidez que uma torre dos castelos medievais; poderia ser morto por um homem de Deus que andasse no campo de batalha a tentar defender os seus ao mesmo tempo que ia dando a extrema-unção àqueles que encontrava, e que já tinham perecido. Podia até ser morto por uma rainha que na fúria do tempo, e no impulso do confronto, saísse em defesa do seu senhor porque não queria ver o seu reino despedaçado. Alegrete achava estranho porque o piso de batalha que tinha debaixo dos seus pés não estava manchado de sangue. Apenas tinha umas manchas brancas e pretas que formavam um padrão simétrico. A sua interrogação agudizava-se a cada momento que passava porque apenas via os seus colegas a desaparecer. Não sabia se eram eles que ficavam para trás para o defender pelas costas; ou se era ele que tinha a força para avançar cegamente no campo de batalha, pois a confiança que tinha no seu comandante era tanta que apenas parecia uma marioneta cumprindo os ditames que outros lhe diziam.

A força dele era enorme, apesar de a sua estatura não se revelar maior do que metro e meio; «Mas o tamanho não importa!» – era o que dizia sempre Alegrete. E assim ia seguindo a sua vida, consciente que iria vencer na vida. As primeiras batalhas meteram-lhe medo; mas como viu que tinha um comandante responsável e saía sempre vitorioso, continuou, festejando ocasionalmente com um banquete das maiores delícias; com vinho do melhor que havia e com as melhores danças e voltas que a própria época tinha. Poder-se-á dizer também que Alegrete viveu as suas aventuras amorosas, e algumas foram bem matreiras e muito tresloucadas.

Quando saiu para o campo de batalha, sentiu mais umas vez a força que já era característica dele; tinha ainda a mesma confiança que vinha depositando ao longo dos anos na figura do seu comandante. Ainda despojado de armas, e com uma estrutura física simples, avançou no campo de batalha às ordens do fiel mandatário. Viu outros iguais a si a aproximar-se e temia pela sua vida e pela dos seus companheiros; mas como naquele momento estava na fileira sozinho, continuou com uma posição firme. Aos poucos viu os seus pares a aproximarem-se ainda mais; viu os seus colegas cavaleiros a avançar de forma estratégica; reparou que também o seu comandante tinha tido a audácia de desenvolver a engenharia militar para protegê-lo não só a ele, mas como a todas as peças do batalhão. Sentiu-se invadido espiritualmente por uma força que parecia ser superior. Continuou a avançar no sítio de batalha; e aos poucos começou novamente a notar que era ele só que avançava.

Sentiu-se sozinho. Pensou: «Eu devia era ter ido para bispo, como o meu pai queria!». Alegrete continuou com o instinto militar que tinha adquirido nas batalhas anteriores. Mas os seus companheiros começavam a cair por terra, à mão de elementos inimigos que tiravam o seu lugar; mas também tiravam a sua vida. A batalha começava a tornar-se perigosa, e já tinham perdido um dos mais rápidos cavalos que tinham em todo o regimento de cavalaria, porque o próprio cavaleiro tinha sido degolado por outro inimigo que o tinha atacado à traição. A batalha era perigosa porque naquele dia, o rei tinha vindo ao campo de confronto, e nada poderia acontecer-lhe ou então o jogo mental e territorial estava ganho pelo inimigo. Numa fúria que nem Deus perdoaria, a rainha, senhora de Alegrete irrompe pelo espaço de batalha desbaratando alguns inimigos que ele próprio não teria conseguido dominar. Estava pronto para continuar em direcção à morte, mas viu que o rei inimigo estava em posição falível de ataque.

Ele para, pensa, e vê quais são as suas condicionantes: por um lado, poderia ser o herói e derrotar o magnata inimigo; por outro, poderia morrer ao tentar conquistar uma situação que era impensável e que qualquer um com um pingo de conhecimento saberia que o cerco ao monarca inimigo iria resultar num falhanço. Ele poder-se-ia desiludir a ele próprio e ao comandante. Reparou que uma criatura parecida com uma mão andava sobrevoando os céus, e ele teria de tomar uma decisão.

Cercou o rei inimigo e viu-se numa situação complicada; o rei tinha-se movido como uma chita. Viu-se rodeado de inimigos e pensou que pior que morrer, seria morrer às mãos de um com função semelhante à sua. Os seus amigos tomaram a tarefa de capturar o rei infesto, e Alegrete com força destronou todos os inimigos à sua volta.

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4.ª Reunião: Num tabuleiro qualquer.

– Rafael Soares

Nesta funesta organização quadriculada, os primeiros alvores da guerra. Não haverá outra tão cavalheiresca na criação bélica.

Cumprimentam-se as peças sem saberem destino, soltando os raspões que o seu corpo enjaulado numa madeira tratada faz sobre o exercício escorregadio do tabuleiro de xadrez. Os peões recriam a ordem. Respiram a disciplina como folhas de outono prestes a serem húmus fotográfico nos centímetros que o cemitério lhes guardará.

E as torres, tão hirtas, tão pesadas, mantêm-se na horizontalidade do alívio e na verticalidade maternalista. Auxiliam-lhe os cavalos, quixotescos, relinchando por novos venenos, rédea solta pronta para emergirem do abismo medieval. E os bispos, oh, os bispos…revivem as horas eclesiásticas que a morte oblíqua aproxima. Cada passo seu é uma incerteza clerical, é um jogo papal, uma brincadeira entre monges.

Fita certa a rainha, completa, destemida, aguerrida, guerreira ardida pela eloquência que a fez estar perto do seu amante, que transporta a cruz numa coroa seguríssima, o rei. Já a batalha começa e ainda aperta ele a fivela que lhe mantém aveludada a imperial veste. O mundo é dos homens mas estamos claros que o tabuleiro é da mulher.

Vestem todos o perigo, num passo que pode ser o último. Preocupam-se com uma pureza que não existe, uma selva incontrolável aos ímpetos políticos dos quadrados brancos e pretos. Sentam-se secos no banco, em teatros repetidos pela destreza humana. Xeque-mate aos ignóbeis do ideal maquiavélico de destruição ritmada.

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4.ª Reunião: Kleptes – pseudo-texto de opinião sobre o corrupto

– José Carlos

Não sou bom em textos de opinião. É sabido que é mais fácil escrever um texto bonito do que um texto com sentido. A personagem tem sempre melhor voz do que o vizinho ou o amigo, porque afecta-nos com a nostalgia que existe pelo irreal esconder, eventualmente, rostos a sério. O tema pede-me, contudo, para que desta vez não escreva sobre a mãe de um juiz-guerreiro-xamã que foi esfolado na Grécia Antiga.

Diz-me o corrupto que não gosta de ser chamado corrupto, o nome é feio e só lhe diz que perdeu toda a personalidade. O adjectivo não é como uma outra qualquer característica lançada ao calha, incha como um abcesso no dente e rouba tudo com o que o corrupto nascera. Antes é um homem simpático casado com três filhos, depois é um corrupto. O corrupto não leva um e nem uma vírgula: está condenado ao mas é corrupto.

Não é que ele se importe muito, na realidade. As aparências só não lhe são nocivas se tiver ao seu lado um cacete e uma espingarda. Também me diz o corrupto que, com acordo ortográfico ou não, não troca por nada o seu p, qual corruto qual quê, os nomes são para serem ditos em condições. É a letrinha o seu sinal de família, um p tão latino e romano quanto o espírito mafioso. Corruptus, corruptonis do verbo corrumpere. Os avós romanos do corrupto tinham escrito na testa “irremediavelmente partido”, o sentido literal da palavra. Conversavam sibilantes como agora, repetindo constantemente as suas vitórias e vinganças, os “eu disse-te que conseguia” e os “é a regra da vida”. Irremediavelmente partido não é irremediavelmente falido.

Enganam-se aqueles que julgam que a carreira de corrupto não tem os seus percalços. De vez em quando, quando as coisas apertam, os corruptos maiores corrompem os espíritos dos outros. Rasgam livros, apontam os indicadores, fazem caretas, carregam nas costas os chicotes. Torna-se difícil saber quem é o corrupto. E nessas alturas, assim que se apanha um lá no fundo da praça, a suar de tanto correr, entorna-se o caldo. Os hebreus dedicavam-lhe flagelos, os assírios crucificavam-nos, os gregos esfolavam-nos vivos. Só os romanos, daquela aldeia de pastores que dominou o mundo, eram brandos com os corrompidos. E aceitaram-nos de braços abertos e flácidos, a suspeitarem do clã e da família, da tribo e do parente, uns dos outros e os outros de uns até que por fim um corrupto maior se colocasse em cima de um trono com erva no cabelo e lhe chamassem de imperador, com a naifa que o defende a servir de naifa que o ofende e mata, às mãos de outro traidor traído à nascença pelo governo.

Está dito o fácil. Lido na diagonal, até é bonito. Não é preciso um monge tibetano para falar do mundo cleptocrata, do Papa subordinado, do Borgia nepotista. Disse Confúcio de barbas longas que a arte de fazer política é saber governar pessoas, ludibriando-as. A alternativa é a meditação interior, a solidão absoluta. Pois bem, meu caro, não quero estar sozinho. Prefiro ser livre, sabendo que isso implica copiar nos testes, dar trabalho a um amigo, comprar contas bancárias, anularem o golo sem ser fora de jogo. Ser corrupto não é mais do que ser um altruísta elitista, um caçador de oportunidades. No fundo, ninguém se espanta com os casos, os factos. Ficamos à espera de uma cara, um governo, ou uma empresa que dêem forma à sensação geral de estarmos a ser enganados, porque somos todos enganados. E nenhum mais enganado do que o corrupto. Não há moral ou lição que nos valha – as entidades independentes de avaliação têm de ser isoladas, os programas anticorrupção optimizados, as abordagens à macro escala dos economistas adaptadas às estruturas hierarquizadas da microescala. Mais decisivo ainda, é perceber os factores socioeconómicos dos países verdadeiramente cleptocratas, cortar o problema pela raiz. Alastrar às massas as ferramentas de defesa económica, suportar os estudos independentes a nível universitário. Acabar com a alimentação do sensionalismo, perder o medo de perder o emprego, de perder o ego.

Estou cansado de escrever. Talvez ainda tenha fôlego para dizer: a personagem e o corrupto são membros da mesma família. Têm o mesmo cabelo da mãe, os olhos verdes do pai. Herdam a transparência, descendentes de artistas e oportunistas com um olhar sereno e concreto sobre o mundo. Quem passa por eles fica com a mesma sensação, são filhos da mente criativa. Passeiam os dois entre as ruas e entre nós, orgulhosos e produzidos, sem corpo pleno ou definido, com ares de obra-prima. Caminham descansados sem serem reparados, de olhares aparvalhados. A altivez passa-lhes rápido, contudo: se lhes pergunta algo com seriedade, respondem ambos que não existem, e desatam a correm aos tropeções nos passeios, nos desvios das percepções. Depois param lá à frente, exaustos da corrida que é serem pensados. Não sei o que vos parece, mas a mim dá-me impressão que os dois usam Nivea. Escondem rugas de existências imemoriais com camadas de creme, presos à sociedade de livre pensamento. Por isso talvez não me custe assim tanto escrever este pseudo-texto de opinião – os dois têm a sua devida dose de fantasia.

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3.ª Reunião: Esquece os Sonhos, Serve Cafés

-Rui Barros

Rostos cerrados, mentes abandonadas, sentidos arbitrários, sonhos esquecidos. A cidade pulsa de ódio e frustração e são os Homens os inventores do tempo. Rápido, mais rápido, ainda mais rápido! É este o fluxo urbano.

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